VERGONHA ALHEIA - Por Marina Morita - Woman To Be

Durante um desses eventos de fim de ano no trabalho anunciaram que uma estagiária iria se apresentar em poucos minutos, e que a apresentação seria uma performance de cheerleader. Imediatamente achei aquilo estranho e fora de propósito (por diversos motivos), mas pensei que talvez eu tivesse entendido errado e não fosse exatamente aquilo o que iria acontecer. Eu estava errada, foi sim exatamente o que aconteceu. A moça
entrou com aquelas roupas típicas de filmes norte-americanos e fez, sozinha, uma apresentação de cheerleader, aparentemente ligada à sua faculdade. Durante a apresentação eu senti uma vergonha tão grande pela menina que me lembro de ficar pensando sobre isso dias depois.

Fiquei pensando no porquê eu me senti tão envergonhada por algo que não me dizia o menor respeito. E pensei nas diversas vezes em que me senti assim em situações aleatórias ao longo dos anos, bem como nas vezes que amigas provavelmente se sentiram um pouco assim em relação a mim (sim, eu também tenho meus momentos). Normalmente me sinto com vergonha alheia quando vejo alguém fazendo algo que eu jamais cogitaria fazer, e transfiro o sentimento do que eu sentiria se estivesse fazendo aquilo para a pessoa que de fato está. Acontece que a pessoa, na maioria das vezes, não está fazendo a tal coisa obrigada ou por estar alterada de alguma forma – o que às vezes acontece também, mas aí é outra história, porque nem a própria pessoa iria querer tal situação se estivesse em seu estado normal.

Acontece que em diversas ocasiões o que é impensável para nós é totalmente tranquilo para a pessoa que está recebendo toda a nossa vergonha. Como eu disse, tenho amigas que se sentem super envergonhadas quando estamos em um bar e eu falo um pouco mais alto no calor de alguma discussão específica, enquanto eu estou me sentindo muito bem. E qual a diferença desta situação com a da cheerleader? Os limites do aceitável para cada um são muito pessoais, e no que se baseiam é um mistério. Mas maiores ou menores, temos nossos limites e, a partir deles, começa a nossa vergonha, alheia ou não. O que me intriga é a razão pela qual sentimos isso, e foi exatamente sobre o que eu fiquei pensando nos dias após a apresentação da moça.

Acabei chegando à conclusão de que eu até sentia um pouco de inveja dela. Porque para mim uma pessoa que tinha coragem de fazer o que ela fez, sozinha e na frente de todo mundo com quem ela trabalhava diariamente, é uma pessoa que ou verdadeiramente não se importa com o que os outros pensam sobre ela ou é completamente sem noção a respeito disso. Em qualquer dos casos, ela deve, imagino eu, levar a vida de forma bem mais leve do que eu. Falo sinceramente isso, pois admiro pessoas que descolam um pouco dessa normalidade inventada. Eu não me considero a pessoa mais envergonhada socialmente nem nada, até por isso que acho que minhas amigas sentem um pouco de vergonha por mim às vezes. Mas ainda tenho um longo caminho para me considerar desprendida.

Moral da história, vamos todos nos vestir de cheerleader e ir nos apresentar por aí. Brincadeira! Até porque, neste particular, há uma questão ideológica por trás da ideia que me impediria de realizar tal feito. Mas usando a frase como uma metáfora, sim. A vida é tão curta e passa tão rápido, e a verdade é que ninguém está realmente prestando tanta atenção assim na gente quanto a gente pensa. Não fazer algo por conta dos outros parece não fazer muito sentido. Quero ser mais sem noção mesmo ou, quem sabe, conseguir o feito de parar de me importar com a opinião alheia, porque, no fim das contas, imagino que a vida vá ser bem mais divertida assim.

Mariana Morita
Interessada pelo comportamento humano, observadora do cotidiano e eterna curiosa.

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