SATISFAÇÃO SOCIAL - Por Mariana Morita - Woman To Be
Estava caminhando outro dia e me deparei com uma cena muito engraçada. Uma menina de uns 20 anos fazendo caras e bocas para a câmera do próprio celular tirando selfies. Depois de várias tentativas parece que ela ficou satisfeita com o resultado de pelo menos uma das fotos tiradas. Achei a cena engraçada, e ao mesmo tempo um pouco triste. Isso me lembrou as pessoas que postam storys fazendo caras e bocas porque acabaram de cortar o cabelo com um cabelereiro conhecido ou porque estão mostrando alguma roupa, ou por qualquer outro motivo que possa existir. Sabe aquela semi-risada que a pessoa dá para câmera seguida de uma semi-viradinha de olho? Então, essa cara. Não sei quem disse que isso é legal, mas aparentemente é e todo mundo deve achar porque é cada vez mais comum.

A dependência da aprovação alheia não é algo novo, mas com as redes sociais tomou uma proporção eu acho que jamais vista em qualquer outro tempo da história humana. Hoje a sensação que dá é que você só é “alguém” se você for minimamente alguém online. Algumas pessoas somente sentem que fizeram de fato algo se for possível postar este algo, seja um happy hour com amigos, um final de semana com a família no campo ou uma noite romântica a dois. Veja bem, não acho que postar seja necessariamente algo ruim, até gosto e faço de vez em quando (ultimamente, bem de vez em quando). Mas qual a necessidade que desenvolvemos de mostrar para todo mundo o que fizemos e com quem o tempo todo? Desde quando isso se tornou uma espécie de satisfação social?

Já ouvi de uma amiga que ela sabia que postava muito sobre tudo o que acontecia com ela, mas que ela havia passado muito tempo sem ter grandes coisas para postar, então agora que ela tinha um namorado e que estava fazendo várias coisas legais, ela meio que queria recuperar o tempo perdido de não postagens e mostrar para todo mundo como ela estava bem. Aparentemente somente estar bem não era suficiente. Hoje em dia não basta estar feliz, você tem que parecer feliz, nas redes, se não do que adianta? Isso tudo gera uma cobrança muito grande, as pessoas parecem não saber mais sair e não tirar foto, e não foto para ter como recordação depois, mas foto para prestar contas ao universo online.

Pode parecer que eu não gosto de tirar fotos, mas não é o caso. Sou a maior fã dos registros fotográficos, uma porque amo ver fotos antigas e outra porque sou conhecidamente uma desmemoriada, então as fotos são de grande auxílio para mim quando a minha memória falha (o que acontece muito, infelizmente). Mas a foto em si, como lembrança, e a foto como obrigação social são coisas bem distintas. A primeira é uma recordação de um momento especial que vai ficar eternizado vividamente em uma imagem. Já a segunda é uma espécie de prestação de contas dada a pessoas que muitas vezes nem são próximas a você. Muitas vezes me sinto deslocada no mundo, e sobre esse – na minha opinião – desnecessário excesso de exposição online eu definitivamente me sinto uma alienígena. Não consigo me acostumar com esse lado da modernidade, para mim tudo parece forçado demais e bem pasteurizado.

Você já deve ter ouvido que os melhores encontros são aqueles em que acabamos esquecendo de tirar fotos, e eu acho que muitas vezes são mesmo. Quantas vezes eu cheguei em casa e no grupo das minhas amigas sempre vinha a mesma mensagem: “poxa, esquecemos de tirar uma fotinho de novo!”. Fico triste, porque, como eu já disse acima, eu vou acabar nem lembrando de grande parte desses encontros, devido à minha memória falha. Mas no fundo o que importa é que aquele momento foi realmente aproveitado, com muitas risadas, muita conversa e, muitas vezes, muito cabelo desarrumado e maquiagem borrada, sem nenhuma preocupação quanto a isso. O que me faz pensar que o momento pode não ser instagramável, mas será que isso realmente importa?

Mariana Morita
Interessada pelo comportamento humano, observadora do cotidiano e eterna curiosa.

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