SER SOCIAL - por Mariana Morita - Woman To Be

O ser humano é um ser social, ou seja, ele necessita estar em contato com outras pessoas para viver. E essa troca com o outro pela qual tanto ansiamos ocorre em grande parte através da fala. Em um dos filmes dos “Planetas dos Macacos” é feita uma relação da perda da fala com a perda da humanidade ou com a aproximação de um estado mais animalesco, pois a fala seria um dos nossos diferenciais de superioridade humana em relação aos outros animais. Independente de se concordar ou não com essa afirmação de suposta superioridade, fato é que a comunicação verbal tem uma importância enorme na socialização humana. Apesar disto, é muito comum que a gente converse por horas com uma pessoa e saia com a sensação de que ela não ouviu praticamente nada do que dissemos.

Reparei nisto este fim de semana. Na verdade, já tinha percebido essa dinâmica diversas vezes antes, mas o tema retornou para mim de forma mais evidente, pois encontrei um casal de amigos psicólogos. Não tenho muitos amigos psicólogos, então não tenho como dizer se seria algo comum à classe ou não. Mas sabe quando você está falando algo e as pessoas estão de fato ouvindo e se interessando pelo que você tem a dizer? Fazendo perguntas! Querendo que você termine o que está falando no seu tempo, sem pressa, sem que você fique com aquela sensação de que assim que você respirar vão te interromper e começar a falar em cima de você? Então, foi assim. Um interesse genuíno na troca com o outro e não em simplesmente falar e ouvir a própria voz, as próprias opiniões. Pode até parecer a descrição de uma sessão de terapia, mas pensa bem, esta, na minha opinião, deveria ser a dinâmica de toda a qualquer conversa entre pessoas. Ah, apesar de eu não ter dito, teve a recíproca, eles também falaram e foram ouvidos, tudo sem pressa e com interesse verdadeiro.

Parece cada vez mais difícil encontrar pessoas assim, que se interessem realmente pelo que o outro tem a dizer. A impressão que eu tenho é que cada vez mais as conversas são realizadas em grupo, mas de forma individual. Porque, apesar de visualmente ser uma conversa entre pessoas, as pessoas estão “conversando” com elas mesmas, interessadas mais e mais em simplesmente ouvir o som da própria voz, sempre a espera do momento em que o outro vai finalmente para de falar para que possam voltar a ouvir a própria voz novamente. Eu sempre me considerei uma pessoa com profundo interesse no outro, no que o outro tem a dizer, nas suas histórias, sua percepção dos acontecimentos, suas opiniões, aspirações, medos, enfim, dá para ter uma ideia. Sempre achei tudo isso muito rico, muito interessante. Por isso, geralmente eu tenho real interesse no que o outro tem para dizer, mas esse interesse dificilmente é recíproco. As pessoas se acostumaram a somente quererem ouvir as próprias histórias, as próprias opiniões, as próprias angústias. Até existe uma escuta de fachada somente para que depois se possa começar a própria tentativa de ser ouvido pelo outro.

Pode ser que eu esteja alucinando e vendo problema onde não existe, essa pode somente ser a minha sensação em relação às pessoas, ou uma consequência das pessoas com quem ando me relacionando. Pode ser. Mas se não for, acho que devemos repensar a forma como temos agido quando estamos conversando com alguém. Sabe aquela história de não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você? Pois bem, se aplica a quase tudo na vida, e se aplica aqui também. Mas não é só isso, você vai se surpreender com o universo que existe no outro. No fundo, todos queremos ser ouvidos, mas para isso precisamos também começar a ouvir.

Fica a pergunta: você já ouviu (mas realmente ouviu) alguém hoje?

Mariana Morita
Interessada pelo comportamento humano, observadora do cotidiano e eterna curiosa.

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